sábado, 15 de março de 2008

Dona Cisna vai namorar




Dona Cisna vai namorar
e o seu coração é um sonar
saracoteia, ribomba,
seduz e sona,
vibra como um pulsar

Dona Cisna vai de passeio
e insufla de ar o seu penacho
borbulha frus-frus sarapintados
volteia em oito veludos,
penas cheias de trinados.

Dona Cisna vai cheirar a maresia
e de perfumes se despe
aconchega o peito fofo
na sua prancha do verde surf
e desliza luzente e fugidia…

A Pata - Rainha




A Pata – Rainha
não põe ovos,
põe balões,
- sim, balões!
nas águas do lago
da areia fina.

Nada até ao centro
no seu lago de balões
e logo encontra o trono
de tiras de palma colorida
e aí se fica, quieta, comovida.

Tem na crista
desenhada uma coroa
e sem nunca ser vista
voa, voa, voa,
voa, voa, voa.

Nunca ninguém viu
a Pata – Rainha a voar.
Só a pôr balões
- sim, balões!
a subirem para o ar!

Estrela Cata - Cacás







Cacá Cata – Estrelas
busca, como sempre,
o firmamento,
sentado na sua almofada de música.

Num dia de concerto,
uma estrela – gémea
de cabelo valseado
desce da Via - Láctea
e arruma-se como um sol,
muito quieta,
numa pausa da música de Cacá.

Cacá não dá por nada.
Cacá nunca perde o rasto a uma estrela
(porque se tem rasto a estrela é cometa…)

Mas esta estrela - gémea
conhece todas as músicas de Cacá.

Devagar, devagarinho,
a estrela sopra na almofada
colchas e colcheias
e valsas de voar.

E sem perceber como
Cacá eleva-se,
sentado nos sons fofos
da sua almofada
em andamento estelar.

Cacá Cata – Estrelas
vai subindo até às névoas
de leite espalhado em fogo
cada vez mais perto,
mais junto das estrelas que não catou.

Sobe e sobe, tanto e tanto,
até que emperra no céu.
E ali fica. Intermitente.
Cintilante. Parado,
ao lado da sua estrela - gémea:
a Estrela Cata – Cacás.

Noites que jorram beijos


I

As noites que jorram
beijos atravessam luas
de beijos cheias.

II

É na noite noiva
que jorram beijos.

Os beijos atravessam
noivos a noite
e jorram noites
e noites de brancos
beijos.

III

Nas noites
brancos os beijos jorram.

Luas atravessam-se
nas noites e noites
desses beijos
que sendo brancos
das noites jorram.

IV

Noites brancas
de tantos beijos
jorram ainda mais beijos.

Tontos e brancos
brancos e tontos
atravessam
as quatro luas
as quatro noites
num só beijo.

V

Jorram tantos beijos
tontos a noite atravessam
de manhã são rio.

Torrentes de beijos
jorram da noite.
São lágrimas da lua
corada de tantos
beijos
corada de brancos
beijos.

VI

Noites jorram das luas
de beijos coradas
por uma só noite branca.

Na noite, a luz jorrou.
Na boca, o beijo.
Noites jorram beijos
de beijos cheias.
Atravessam luas.
De manhã são rio.

VII

Atravessa a noite
o beijo
jorrou da boca
a sua memória.

Jorrou a lua
da sua memória.
Jorrou das bocas
o beijo
que na sua memória
atravessa a noite.
Tanta noite
e só aquele beijo
a atravessa.

VIII

Na boca o beijo
atravessa de noite
a sua memória.

Beijos atravessam noites.
Jorram da memória
das noites
jorram das noites
jorram dos beijos
memórias
de lua branca.

IX

A noite noiva
veste-se de beijos.

A noite noiva
veste de beijos
o branco
que jorra da lua.
Torrentes de beijos
que de noite jorram
brancas,
atravessam a lua.

X

Jorram tantos beijos
tontos a noite atravessam
de manhã são rio.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

O Espadachim Lunar


Irineu
defende os ovos da Páscoa
do sopro sedutor da lua
e do nascer do sol.

Mas um dos ovos
no vento lunar se eleva.
De espanto pára no alto,
lua sem luz da lua nova.

O sol a nascer
quer resgatar, assim nova,
a lua,
e agiganta-se para a tocar.

Irineu,
então,
transforma-se
no Espadachim Lunar.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

A Bóia Amarela em forma de Flor



O senhor de sandálias, chapéu branco, guarda-sol às riscas e toalha de banho ao ombro tenta desesperadamente abrir o fecho da mochila. Pára junto ao limite da rebentação. Coloca tudo no chão e despe a camisola.

Da mochila retira uma bóia amarela em forma de flor, que enche e coloca nas ondas. Fica com a água pelos joelhos e com o olhar suspenso nas pétalas flutuantes.

O mar é um lago de contínuos tons de anil, o azul só ao fundo se define. Uma alga de mil filamentos castanhos incorpora a areia molhada e quase desaparece. Os pequenos seixos rolados salteados pela maré coreografam o único movimento que assiste a este olhar.
O vento volteia nos panos dos guarda-sóis mas já não produz trinados. Redemoinha, mudo, entre os ombros do homem.

De súbito avista-se um veleiro de dois mastros. Avança rapidamente para a praia. A bóia amarela avança em direcção ao horizonte e o veleiro vem do horizonte. Aproximam-se.

Uma mulher salta da amurada e nada para a bóia. O homem mergulha e nada esguio na água. Até à bóia.
Encontram-se. Abraçam-se.

Já na praia montam o grande guarda-sol de listas. A alga sacode-se. Rebolam abraçados na toalha de veludo. O vento trina suavemente no riso louro da mulher.

O mar salteia as pedras roladas na areia, agora também com búzios e conchas nacaradas que ela apanha e coloca sobre a bóia amarela:
- Era o pólen que faltava.

Batuques sobre a Praia


Há batuques sobre a praia.
Primeiro longe.
Depois cada vez mais perto.

Os ritmos quentes
sobem em cascata
e derramam-se na areia.

Perante os corpos do Verão
as notas abandonam
a partitura do vento.
Em escalada esculpem
as novas formas
redondas e nuas.

Numa coxa
saricoteia
uma colcha de colcheias.

Fusas em parafuso
fundem-se no dedo do pé
do rapaz sisudo.

Três jovens negras,
retintas negras de biquini,
cada uma
é uma nota de tercina.

Cruzam-se novas toadas
gingam missangas
bailam gargalhadas.

E fica ainda mais doce
o já doce espanto da praia.