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domingo, 17 de maio de 2009

Um dia uma Filhó


Um dia uma filhó
começou a tremigotar.
E o seu acento suspensou.
Assim. Suspensou no ar.

A filhó passou a filho,
só sabia saltandar.
Deu um encontrão ao acento
e voltou-se a acentuar.

O acento sempre em queda
espiralizou pelo ó abaixo.
E o filho passou a filha.
Assim. Por questão de espaço.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Poema da Arrifana



Espero,
escondido e ancorado em pleno mar.
Enraízo,
leixão comido pelo vento e marés.
Voo,
para lugar nenhum.

Porque se acentuam as ondas
em tons gradados de azul?

Pairam gaivotas ofuscam
o bote na roda das bóias brancas .
A proa alta embala as ondas.

Escondido e ancorado em pleno mar.
Separado da deriva por um cabo.
Unido a um destino por um cabo.

Uma vaga de anil solta as amarras.
Voo,
lenço de seda roubado pelo Levante,
o bote,
caminho das ondas para a praia.

Totenruga - Dólmen



totem
ruga
dólmen

tarta
ruga
dólmen

tarta
dólmen
totem

ruga
dólmen
tarta

totem
tarta
dólmen

totem
tartaruga
dolmen

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Duas Senhoras num Canto sem Canto



duas velhas senhoras
acordam dentro do espanto
espanto desalinhado pranto
de um campo sem flores

espanto escancarado pranto
arde nos olhos, vago de cores
senhoras, num canto sem canto,
vazio de linho, vazio de amores

num canto, as senhoras,
sem forno, o pão frio,
abrem a janela, deitam-se ao caminho,
rosal esgotado, mil vezes daninho

o caminho realça a janela
esmerada, de sete agulhas tecida,
janela de lã, desbotada,
espiral contínua da vida

sexta-feira, 9 de maio de 2008

A Caverna


Pessoas como barras metálicas
transportam vidas transparentes.

Pisam chão de paralelepípedos,
calcário preso no cimento.

No tecto
caixotões de betão frio.
Duas aberturas quadradas
por onde entra a luz:
uma azul, outra encarnada.
Nelas projectadas
sombras de grades.

Sete caixas de aço
controlam saídas e entradas.
Para entrar espera um casal
(ele e ela de costas,
cada um com telemóvel).
Duas senhoras
trocam de sacos.
Todos trocam de vidas.

Flores, barcos, peixes e fateixas
saem do fundo no vidro pintados.

Pessoas como caixotões de cimento frio
transportam vidros pintados de vida.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Viagem Silenciosa


Três grãos de trigo
vogam, à deriva vogam,
no regato silencioso.

Um é comido pelo peixe,
outro cai no bico do guarda-rios,
e o terceiro encalha na margem,
seca e no vento sobe.

O trigo do peixe
enguia, é enguia
vai para o mar
deslizar na corrente.

O trigo da ave
a ave o largou,
na planície caiu,
na planície nua,
e morreu.

O trigo do vento
o vento o embala
hoje ainda o embala
na seara, na seara,
na seara, sempre na seara,
na seara e para sempre,
o embala… o embala
na seara o embala,
hoje e para sempre,
o vento o embala,
o embala, o embala,
é o vento, a seara é o vento,
a seara o embala,
no vento, no vento,
sempre , sempre,
o embala no vento,
o vento é seara, é seara, é seara…
o vento, e para sempre,
o embala, agora e para sempre…
o embala, o embala…
a seara é o vento…

sábado, 15 de março de 2008

Noites que jorram beijos


I

As noites que jorram
beijos atravessam luas
de beijos cheias.

II

É na noite noiva
que jorram beijos.

Os beijos atravessam
noivos a noite
e jorram noites
e noites de brancos
beijos.

III

Nas noites
brancos os beijos jorram.

Luas atravessam-se
nas noites e noites
desses beijos
que sendo brancos
das noites jorram.

IV

Noites brancas
de tantos beijos
jorram ainda mais beijos.

Tontos e brancos
brancos e tontos
atravessam
as quatro luas
as quatro noites
num só beijo.

V

Jorram tantos beijos
tontos a noite atravessam
de manhã são rio.

Torrentes de beijos
jorram da noite.
São lágrimas da lua
corada de tantos
beijos
corada de brancos
beijos.

VI

Noites jorram das luas
de beijos coradas
por uma só noite branca.

Na noite, a luz jorrou.
Na boca, o beijo.
Noites jorram beijos
de beijos cheias.
Atravessam luas.
De manhã são rio.

VII

Atravessa a noite
o beijo
jorrou da boca
a sua memória.

Jorrou a lua
da sua memória.
Jorrou das bocas
o beijo
que na sua memória
atravessa a noite.
Tanta noite
e só aquele beijo
a atravessa.

VIII

Na boca o beijo
atravessa de noite
a sua memória.

Beijos atravessam noites.
Jorram da memória
das noites
jorram das noites
jorram dos beijos
memórias
de lua branca.

IX

A noite noiva
veste-se de beijos.

A noite noiva
veste de beijos
o branco
que jorra da lua.
Torrentes de beijos
que de noite jorram
brancas,
atravessam a lua.

X

Jorram tantos beijos
tontos a noite atravessam
de manhã são rio.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Batuques sobre a Praia


Há batuques sobre a praia.
Primeiro longe.
Depois cada vez mais perto.

Os ritmos quentes
sobem em cascata
e derramam-se na areia.

Perante os corpos do Verão
as notas abandonam
a partitura do vento.
Em escalada esculpem
as novas formas
redondas e nuas.

Numa coxa
saricoteia
uma colcha de colcheias.

Fusas em parafuso
fundem-se no dedo do pé
do rapaz sisudo.

Três jovens negras,
retintas negras de biquini,
cada uma
é uma nota de tercina.

Cruzam-se novas toadas
gingam missangas
bailam gargalhadas.

E fica ainda mais doce
o já doce espanto da praia.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Fada Almofadada


A almofada cheira a mofo.
Logo não é uma almofada,
é uma mofada.
Ou uma mó de fada.
Também pode ser.

A lareira era um lar.
Era. Já não é.
Agora é uma eira.
E é uma ira não ter lar,
se bem que uma eira é um lar,
grande e redondo
de vento e cal…
Uma eira é um lar solar.
Afinal uma eira é mesmo só lar.

O Fantocha perdeu a tocha.
Ficou a ser apenas o Fan.
E pronto.

Como vamos terminar
o Fan levou uma lufada de ar
e acendeu-se de novo a tocha
na eira solar.

Só mais uma adivinha:
o que é uma fantocheira almofadada?...!?...
É uma fada que cheira a erva cidreira.
E pronto.
Pronto.

Aia na Alcofa


Dentro da alcofa
está uma aia

aia que aia
a aia da saia

Na saia tem alfafa
al fofa na alcofa

aia que aia
de alfafa na saia

Com medo aia a aia
da Fada de Al Faia

aia que aia
de alfafa na saia

Da Fada de Al Faia
é a alfafa da saia

aia que aia
a aia da saia

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Chaddar




três mulheres
três sonhos
três triângulos

caladas caminham
três vidas
três redomas

seguem
sós

ritmo que anda
nos olhos que vivem
três ângulos
três linhas

paralelas
em vidas rectas
num ponto
sós