Mostrar mensagens com a etiqueta buzinverso unilaranja. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta buzinverso unilaranja. Mostrar todas as mensagens

domingo, 2 de novembro de 2008

A Cabra Montês


Todas as manhãs
lá está ela outra vez,
a preparar-se para a corrida,
a coleante Cabra Montês.
Esta cabra não nos salta
em cima e faz em três.
Esta cabra
galopa neblinas
trota estrelas
amacia colinas
corre amanheceres.
Se acorda tempestades
de ribombões e faíscas
desenham-se na sua cauda
balões – leques às listas.
Se a aurora é limpa
e cintilam rumores de alfazema,
ganha a cor e o sabor do morango
em cada uma das pernas.
Se o dia tarda por ser Verão
e espreguiça-se o sol, dormente,
a cabra montês fica xadrez
na sua cara de veludo quente.
Mas é quando se abre a primeira flor
gritando a Primavera,
que no seu lábio superior
nasce uma linha em espiral
solta, seiva destemida,
corre, corre, corre
em infinita corrida.

No Mundo das Beijocas



O Detective Olho Azul
finalmente encontra
o Mundo das Beijocas.

- Estão todos presos!
Por excesso de beijoquice!

Muitas Beijocas! Muitas!
Pelo chão! Pelo ar!
Com asas e com rodas!
São aos milhões!
Bocas grandes! Vermelhas!
Beijinhos aos borbotões!

- Estão presos!
Excesso de beijoquice!
Já disse!

A correr aos esses
vão as beijoletas
e como queijos
em redondoitos
reboletam os borbeijos.

Jinhos pequenininhos
vão pelo Detective acima
numa fila estreita,
em ritmo Chuack
de oitava perfeita.

O Detective Olho Azul
não dá por nada
e coça o pé
a pensar que são formigas…

E num segundo
todo o seu corpo
fica coberto
de Jinhos e mais Jinhos
como se fosse um bolo
ooberto de chocolatinhos.

Por entre as Beijocas
avança a Boca Rosa Maculada
e prega no detective Olho Azul
uma lambidela lambuzada.

E foi assim
que o Detective Olho Azul …
se transbeijocou
em mil e um beijiundos.
Para sempre.

O Arqueiro


O arqueiro lança longe
mais um cheiro:
o da lã do carneiro
que estava no ninho da carriça.
Longe vai o cheiro,
até a uma barca, no mar.
Ao cair o cheiro quente do ninho
da lã do carneiro
no fundo da barca de madeira,
dele e dela,
a palavra amarga muda de tom,
começa a surgir brandura baixinho
e a barca passa a ninho.

O arqueiro semeia
outro cheiro:
o da terra – viva
em profusão primaveril.
Atravessa o campo
e cai na cidade,
num lancil de cimento,
e logo ali,
quem passa, sorri.




O arqueiro
permeia
memórias do que somos
com sonhos de maré cheia.
Trauteia
o campo com pedacinhos de mar
e a cidade que com fruta se recheia.
Caldeia
cheiros de lava
com perfumes de lavanda.

O arqueiro
é o Costureiro.
O arco leva a maçã sadia
que une aos rumores de maresia.
E caminha no suave bulício
do fogo que atea.



A Noiva



Lia, a cotovia,
é a noiva da noite
é a noiva do dia.

Vai casar ao sol postinho
vestida de avental xadrez,
tecido do mais leve ninho
suavizado da mais breve tez.

Lia, a cotovia,
caminha até ao altar
no cimo da oliveira
mais sábia, mais verdadeira.
Sobe ao cume
onde é coada a luz do mundo.
E apronta-se para casar.

Afofa os laços ao vento,
a sombra nos olhos alecrim.
Põe baton,
ajeita os sapatinhos de cetim.

E chega ao cimo da noite,
ao fim do dia,
noiva, noiva, noiva
chilreia Lia, a cotovia,
noiva da noite, noiva do dia.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

O Táxi do Caracol Almoxarife








O Caracol Almoxarife
é taxista e...
roda que vai
roda que gira

Lá vai ele, e já lá aí vai
curvas, rectas, rodopiões…
roda que vai
roda que gira

Taga e Rela, as manas siamesas,
querem entrar.
O Caracol Almoxarife trava e …
roda que vai
roda que gira

Têm pressa!
- Que bom! – diz o taxista Almoxarife,
e num acelerar psicadélico…
roda que vai
roda que gira

Lá vão os três!
Taga e Rela sentam-se em conforto rolado,
nos dois assentos da sua concha em espiral
roda que vai
roda que gira

E tanto tagarela Taga
como tagarela Rela
que nem sentem o táxi elevar-se no ar
roda que vai
roda que gira

Sobem, sobem, sobem
sobem e relam, taga e relam
roda que vai
roda que gira

Taga e relam sem parar
táxi-cometa sem parar
roda que vai
roda que gira

Taga e Rela, Taga e Rela,
Taga e Rela, Taga e Rela…

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Concerto em Bota - Trombone Menor



Chegou a Bota.
Entra no camarim.
Soçobra em atavios,
cordões, molas
atacadores,
sarja, seda, cetim.

Sala cheia.
Rouquidões.
Na primeira fila
o Trompete dos Dois Corações.
Sinos suspendem sorrisos.
Aprumados os violinos.

Já chegou a bota!
- disse um flautim.
Mas onde está o Trombone?
em uníssono
pianíssimo
a audiência conspira:

Esta Bota
de bigodes - de – fuinha
tocará pratos
incorporados?
E será que brilha
o megafone do Trombone?...

Eis que chega o Trombone!
Entra convicto
das suas chaves – duplas
jade – reluzentes,
do seu salto alto “supertone”.

Atenções ao palco!
De um lado a Bota esguia,
do outro
o Trombone cheio de cor!
Vai começar
o concerto – fusão
em Bota – Trombone Menor!

sábado, 15 de março de 2008

Dona Cisna vai namorar




Dona Cisna vai namorar
e o seu coração é um sonar
saracoteia, ribomba,
seduz e sona,
vibra como um pulsar

Dona Cisna vai de passeio
e insufla de ar o seu penacho
borbulha frus-frus sarapintados
volteia em oito veludos,
penas cheias de trinados.

Dona Cisna vai cheirar a maresia
e de perfumes se despe
aconchega o peito fofo
na sua prancha do verde surf
e desliza luzente e fugidia…

A Pata - Rainha




A Pata – Rainha
não põe ovos,
põe balões,
- sim, balões!
nas águas do lago
da areia fina.

Nada até ao centro
no seu lago de balões
e logo encontra o trono
de tiras de palma colorida
e aí se fica, quieta, comovida.

Tem na crista
desenhada uma coroa
e sem nunca ser vista
voa, voa, voa,
voa, voa, voa.

Nunca ninguém viu
a Pata – Rainha a voar.
Só a pôr balões
- sim, balões!
a subirem para o ar!

sábado, 8 de dezembro de 2007

Dom Fuínho e o Palhaço Fuí




Dom Fuínho, regente da banda,
tem um boné e bigodes verdes,
uma batuta e um segredo:
Dom Fuínho é o Palhaço Fuí.

Mas na banda ninguém sabe.
Ninguém sabe alegre Dom Fuínho.
Porque tristes são as canções
de saudade, de melodia.

A batuta de Dom Fuínho
chora no olho lágrimas.
Não há salsas, não há valsas
não há canções de esvoaçar.

Regia a banda, Dom Fuínho,
e é apanhado em flagrante:
- Trouxe o nariz do Palhaço Fuí!
gritou a Pandeireta Julieta.

Então o Palhaço Fuí
sai pelos bigodes de Dom Fuínho
e corre, corre...derramam-se colcheias
em cambalhotas de risos!

O Palhaço Fuí cavalga
nos arpejos em gargalhada,
escala as sinfonias de riso
da nova música da sala!

E Dom Fuínho com ele rebola!
Desde esse dia, Dom Fuínho,
não tem batuta e é o Dom Fuí.
Regem em danças os seus bigodes.

E esvoaça a banda, de nariz encarnado.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Sonho Psicadélico




a galope do relâmpago
cai do sonho psicadélico
João Calemo de Melo

a segui-lo
em bailes eléctricos
ultravioletas
e cachos d’uvas
Maria Tartamuga Buga

só para si
inventaram
novo sonho de fusão
de textura mel-laranja
e de sabor a trovão

Duas Cerejas Coradas


duas cerejas
coradas
abriram os olhos
coram
olhos nos olhos

cereja de vestido croché azul
cereja de gravata de prata

coram
olhos nos olhos
e olhos nos olhos
subitamente

cereja de vestido prata azul
cereja de gravata croché de prata

unidas, coloridas
de prata e croché vestidas
rudidançam
olhos nos olhos

duas cerejas
coradas
abriram os olhos
coram olhos nos olhos

sábado, 1 de dezembro de 2007

Três Cores Cardeais


Cai a noite.
Descansam os líquidos
nos tubos desiguais;
reagentes ressonam
sonham garrafas
dormem cristais.

Surge a lua
amiga de surpresas…
e em crescente cabala
tira a gravidade…
da sala!

De leve em leve
voam espátulas,
vagueiam aventais
sobem tesouras
termómetros
caixinhas de sais.

E sobre a velha bancada
estão já a flutuar
a pipeta verde – chupeta
o balão cobalto – azulão
e a balonesa coral – violeta.

Suspensos,
pipeta, balão e balonesa
giram e revolteiam,
lançando em espiral
uma a uma,
cada gota cardeal!

da saia da balonesa
saem gotas púrpura,
de granada debruadas;

da barriga do balão
caem pingas celestes,
de incensos enfeitiçadas;

do turbante da pipeta
deslizam pingos esmeralda
de matizadas lavas…

No laboratório Íris Irreal
criaram-se hoje
três cores cardeais:
verde - norte – chupeta
cobalto - oeste – azulão
violeta - leste – coral.

Totem de Tartaruga - Dólmen


Era um totem
e era um dólmen.
Veio uma tartaruga
e ficou
totem de tartaruga – dólmen.

A tartaruga
ficou a dolmir,
o dólmen
a tartir, a tartir,
e o totem
a tartamudear
que assim não podia ser:
tinham de mudar.

Então a tartaruga
passou a totenrugar
e o dólmen
foi jogar dominó
com o outro totem do lugar.

Trilolindro, Trilolindro


borbolengas
triloguetas
e um rectilindro
trilolindro
trilolindro
vão visitar
a Eurípedes
pequenina

as borbolengas
levam lenga-lengas

as triloguetas
borboletas

e o rectilindro
um trilolindro

borbolengas
triloguetas
e um rectilindro
trilolindro
trilolindro
foram visitar
a Eurípedes
pequenina

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Três Sirimpintis


Três sirimpintis
foram sirimpintar.
Primeiro iam rinhilis,
depois, com mais calma,
começaram a rinhilar,
a rinhilar, e pararam.

Pararam ao sol
sirimpintados.
O verde, espindorido.
O azul, espalhasol.
O vermelho, assarapantado.

- Vamos ao sirintógrafo?
disse espindossol
o verde, já azulado.
- Vamos!
disseram o azul e o vermelho
muito esverdeados.

E foram de seguida.
Nesse dia nevoeiruz,
todos podiam ver
três sirimpintis
em pose derretida.

Três Talac-Nhocas fazem o Trilho do Mistério








Três talac-nhocas
talac-talac estavam
a estalar pipocas
a cerzir palavras tortas
em rendas de minhocagem.

Em volta de fogueira própria
pipocam termos no caldeirão.
E as palavras saltam, espevitadas,
loucas! em mágicas enroladas
cada uma na sua direcção.

À talac-nhoca Óca
“mistério” foi o que saiu;
“acolá” à talac-nhoca Lac
e sobre a talac-nhoca Nhó
pulou a palavra “trilho”.

Óca, Lac e Nhó, sem pressas,
apagam o fogo das palavras
nas rendas de minhocagem.
É por acolá!
Têm de seguir o trilho do mistério.
Já.

O Burro Atmosférico







O burro atmosférico
é tão doce, tão doce,
que quando fecha os olhos
nevam flores.

Se rebola, solto,
revolto,
chovem confetis,
chovem carnavais
de estrelas intermitentes.

Se está triste
e uma lágrima nasce,
logo um manto azul, denso,
cai sobre a noite
e cerram-se as pálpebras
do horizonte.

Às vezes, se ninguém vê,
brinca com a forma da lua:
lua-gomo-de-laranja
lua-gigante-ferradura-de-ouro
lua-luna-de-lua-em-lua.

E rola revolto
o mundo..
Nevam flores,
chovem confetis,
e cai a noite
de lua em lua.