domingo, 13 de abril de 2008

As Asas da Dona Lontra Bernardina




Na toca da margem da ribeira, que grande azáfama! É Dona Lontra Bernardina que nunca sai de casa. Quer inventar umas asas. Tira que põe, mexe que gira. Tira que põe, mexe que gira.

Dona Lontra Bernardina tem na ria de Alvor um laboratório de alquimia. Quer fazer umas asas para velivolar pelo atrimundo, como a águia, como a andorinha. Tira que põe, mexe que gira. Tira que põe, mexe que gira.

No Inverno, a Águia Pesqueira conta-lhe sobre a neve na Escandinávia.
No Verão o Perna – Longa conta-lhe sobre os desertos de África. E a Dona Lontra Bernardina pergunta-lhes:
- Porque não têm asas as lontras? E porque não voam o mundo?

Já criou um buzinverso unilaranja, uma estrelância ourinémona, uma serilua triluche. Umas asas é que não. E tenta, tenta, tenta. Tira que põe, mexe que gira. Tira que põe, mexe que gira.

Um dia foi visitá-la o Borrelho-de-Coleira-Interrompida e levou-lhe a morraça verde de que fez o seu ninho no sapal.
- A morraça pode ser o ingrediente que te falta!

Noutro dia, foi vê-la a Andorinha-do-Mar-Anã e ofereceu-lhe um estorno flexível de que fez o seu ninho na duna.
- O estorno pode ser o que precisas para as asas!

Ainda noutro dia entrou pela sua casa adentro uma Dourada que a brindou com um pacote do mais saboroso plâncton das águas do estuário.
- O plâncton pode ser o segredo para voares!

Dona Lontra Bernardina agradeceu os seus presentes. Pela primeira vez tomara consciência de que não conhecia as plantas que cresciam mesmo ao lado da sua casa. Nem nunca tinha ido ao sapal, nem à duna, nem às águas do estuário… E mesmo antes de experimentar os novos ingredientes, resolveu retribuir a visita aos seus amigos.

No prado do sapal encontrou o pai Borrelho, que era jardineiro, a podar sapeiras e tamargueiras. Queria deixar tudo pronto para ir ao festim da baixa – mar, organizado pelas amêijoas e lingueirões.

Na duna deparou com a Andorinha-do-Mar-Anã no ninho, protegida do vento pelos cordeirinhos da praia. Chegou mesmo no momento em que umas andorinhas – bebé se libertavam da casca do ovo e outras já corriam atrás de um gafanhoto.

No estuário, imersa nas cores de um jardim de algas e limos, descobriu a Dourada, que era enfermeira e estava a cuidar dos recém – nascidos linguados, robalos e sargos.

Borrelho, Andorinha e Dourada prometeram-lhe que na próxima visita ainda lhe mostrariam outras coisas:
- Quero que vejas como estas flores amarelas vivem dentro das outras plantas do sapal – disse o Borrelho.
- Vou buscar-te na próxima tempestade para veres como a minha duna amortece as ondas – disse a Andorinha.
- Quando o meu amigo choco vier, vou chamar-te para o ajudarmos a pôr os ovos nas alfaces-do-mar – disse a dourada.

Dona Lontra Bernardina chegou a casa cansada. Que fantástico mundo novo tinha ali mesmo ao pé! Dormiu umas horas e quando acordou foi direitinha ao laboratório. À poção para voar juntou a morraça, o estorno e o plâncton. Agitou firmemente aquela mistura psicadélica de verdígulas vermelhas e colocou o tubo de ensaio durante algumas horas nas águas calmas da ria.

Depois engoliu. Em segundos nasceu-lhe uma asa. Depois a outra. Nem queria acreditar! Finalmente podia voar como as aves!!! Saiu e começou a fazer esses e mais esses até cair em redondiz no chão!!

Decidiu ir fazer a surpresa aos seus amigos na festa da baixa – mar.
Já o baile ia a meio quando a Dona Lontra Bernardina tira o seu casaco e
eleva-se no ar, com uma elegância, uma leveza… Tal não foi o desconcerto que até os berbigões pensaram que ela sempre tivera asas!

No fim da noite conheceu o corvo-marinho Abana-Abana que a convidou para voarem até à Ásia. Dona Bernardina disse que sim.
Mas ainda não foi. Não tem tempo. O Mago PMC Zóico nomeou-a naturalista do reino Ceno. O seu laboratório é agora ao ar livre e anda numa azáfama a conhecer cada insecto, cada planta, cada pôr-do-sol da Ria de Alvor.

sábado, 12 de abril de 2008

Lenda da Calçada do Diabo


Há muito, muito tempo atrás, um almocreve seguia a pé com a sua mula carregada de todo o sal que conseguia para trocar por azeite e cânhamo em Barca D’Alva. Um caminho duro, a pique, entre as arribas do Douro, mas que de tantas vezes o fazer o almocreve já conhecia barrancos e precipícios de olhos fechados.

Só que esse dia, que até ali de sol, começa a tomar-se de nuvens, primeiro cinzentas, depois negras como breu. O almocreve apressa o andar, não queria de maneira nenhuma ficar encurralado pela tempestade, e logo no pior lugar: o desfiladeiro da Ribeira do Mosteiro. Sítio medonho mesmo com luz, sem ela era ninho dos trovões.

Por isso, seguia atentamente pela margem, donde via a ribeira a engrossar a cada minuto. Sabia que se não conseguisse encontrar um local para atravessar aquele tumulto - torrente para o outro lado, corria o risco de um encontro com o Eremita do Brita, que atirava cobras cabeludas e lagartos voadores a quem se atrevesse passar por ali.

Apesar de ter aligeirado o passo, tanto quanto os caminhos exíguos entre as escarpas o permitiam, fez-se noite e o assobiar do vento e a maré – alta da chuva impediram o almocreve de dar mais um passo que fosse. A ribeira derramava-se que se perdia.

Aninhado com a mula sob um enorme penedo redondo na curva da ribeira, eram fustigados por rajadas e bátegas em fúria. Todo o vale era um rio e o esforço agora era para não se deixarem levar pela força da corrente. Todo o carrego de sal já se diluira na água que corria salgada como um mar.

O almocreve já duvidava que conseguisse sair daquele inferno vivo. Os relâmpagos faziam ricochete nos quartzitos e cada cintilar de luz uma labareda que ecoava nas fragas.

Louco de pavor gritou:
- Que me acuda Deus ou o Diabo!

E apareceu-lhe o Diabo.
Negociaram debaixo das águas imparáveis: se o Diabo conseguisse fazer uma ponte e uma calçada que permitisse ao almocreve atravessar para a outra margem até ao planalto, o Diabo ficaria com a sua alma. Mas só se a calçada ficasse totalmente acabada antes do galo cantar três vezes. Foi este o trato.

Em menos de um relâmpago o Diabo ecoou um trovão medonho que fez ribombar milhões de anos de fraguedos vertiginosos. Estremeceu a terra e aquelas formas dos penedos que ao cair da tarde acentuam as nossas certezas sobre tratarem-se de seres bizarros e grotescos, assumiram vida. Sairam do seu lugar na paisagem e vieram ajudar o Diabo a fazer a calçada.

Rocha a calcetar rocha com os punhos; rocha em movimento a transportar rocha numa visão entrecortada por bailes-fumaça de nuvens. Relâmpagos de sangue a ciclonar enraivecidos.

O almocreve e a sua mula ficaram expostos de todos os quadrantes, depois da rocha que os abrigava se ter transformado em gnomo-canteiro, um amontoado de borbotões de xisto a partir pedra, com um queixo enorme e um só olho de quartzo.

Uma azáfama infernal de forja fumegante tomou conta do lugar. E o dia clareou ao 1º cantar do galo. O galo cantou apenas uma vez.

Durante toda a manhã, toda a tempestade, o Diabo e os seus ajudantes construiam a calçada, que surgia fabulosa, com dezoito lancetes de lages de quartzito finamente trabalhadas. Ao meio-dia ouviu-se segundo cantar do galo. Duas vezes o segundo galo cantou.

O diabo urrou com os olhos a derreterem-se em veias, e elfos, fantasmas e gnomos de pedra aumentaram o ritmo do trabalho. E arrepiaram desvairados sons à sua cantilena arrítmica.

Uma longa fila de criaturas endemoninhadas passava de mão em mão pedregulhos a começar no vale e a seguir pela encosta até ao topo. O nevoeiro e a lama só por segundos permitiam descortinar a extrema exactidão do trabalho. O lugar onde muitos se amontoavam deixava saber da evolução da calçada. Era como se em cada minuto uma nova montanha se formasse.

Ao cair da tarde, o emaranhado de diabos de rocha viva estava concentrado no Castro de São Paulito. Bruxas litológicas dançavam estridentes. Anunciavam o fim da Calçada. Rejubilavam por mais uma alma.

O Almocreve e a sua mula tinham caminhado até junto deles, tinham atravessado a ponte e inaugurado a calçada perfeita.
- O fim da minha alma – pensou o Almocreve.

Mas eis que o terceiro galo cantou! E cantou uma, duas, três vezes. Três vezes! E um urro medonho, o mais medonho, ecoou, estremeceu o mundo!
O almocreve foi a correr, ficou ao lado do Diabo: à sua frente, no termo da calçada, estava o Gnomo do Olho de Quartzo, imóvel, com um bloco de quartzito na mão. Para estar concluída, a calçada precisava desta peça, que completava o travamento. Mas o galo cantou antes.

O Almocreve e a sua mula passaram para o planalto. Não levavam o sal. O Almocreve levava a sua alma.

E antes de cair a noite, todos os acólitos do diabo, viajantes - cavaleiros que perderam a alma, incorporaram novamente o seu lugar em forma de penedo. São as figuras das fragas. Só o diabo desapareceu engolido por uma bocarra que se abriu e logo se fechou entre os penhascos do Muro da Abalona.

domingo, 6 de abril de 2008

Mota Aerodinâmica - poema em três momentos








momento I


em que ELE se vê duplicado,
por dissociação panorâmica
antes de atingir a velocidade da luz
na sua mota aerodinâmica

com jantes em siliprene ionizada
o seu assento em lã de freixo
faróis de rotação em eixo
carburador de cantata matizada




momento II
em que ELA consegue amontoar
em equilíbrio exemplar
vinda da praia, a carga titânica
sobre a sua mota aerodinâmica

os bolinhos de figo, as toalhas, a geleira,
prancha de surf, barbatanas, um abanador,
o baldinho, o chapéu-de-sol, as braçadeiras,
bóias, colchão, um leque e o bronzeador


momento III
choque frontal: ELE + ELA + MOTAS
à velocidade da luz

os bolinhos sabem a siliprene atoalhada
o assento é de figo ionizado e verte cantatas
o chapéu de sol faz rotações em eixo
as barbatanas fogem assustadas



ELE e ELA descobrem o buraco negro
(aquele que faz a ponte entre galáxias)
e partem na nova mota vácuo - dinâmica…


para emoções espaciais a 300 mil quilómetros por segundo visite o site:
http // www.aventuravácuodinâmica.com

sábado, 15 de março de 2008

Dona Cisna vai namorar




Dona Cisna vai namorar
e o seu coração é um sonar
saracoteia, ribomba,
seduz e sona,
vibra como um pulsar

Dona Cisna vai de passeio
e insufla de ar o seu penacho
borbulha frus-frus sarapintados
volteia em oito veludos,
penas cheias de trinados.

Dona Cisna vai cheirar a maresia
e de perfumes se despe
aconchega o peito fofo
na sua prancha do verde surf
e desliza luzente e fugidia…

A Pata - Rainha




A Pata – Rainha
não põe ovos,
põe balões,
- sim, balões!
nas águas do lago
da areia fina.

Nada até ao centro
no seu lago de balões
e logo encontra o trono
de tiras de palma colorida
e aí se fica, quieta, comovida.

Tem na crista
desenhada uma coroa
e sem nunca ser vista
voa, voa, voa,
voa, voa, voa.

Nunca ninguém viu
a Pata – Rainha a voar.
Só a pôr balões
- sim, balões!
a subirem para o ar!

Estrela Cata - Cacás







Cacá Cata – Estrelas
busca, como sempre,
o firmamento,
sentado na sua almofada de música.

Num dia de concerto,
uma estrela – gémea
de cabelo valseado
desce da Via - Láctea
e arruma-se como um sol,
muito quieta,
numa pausa da música de Cacá.

Cacá não dá por nada.
Cacá nunca perde o rasto a uma estrela
(porque se tem rasto a estrela é cometa…)

Mas esta estrela - gémea
conhece todas as músicas de Cacá.

Devagar, devagarinho,
a estrela sopra na almofada
colchas e colcheias
e valsas de voar.

E sem perceber como
Cacá eleva-se,
sentado nos sons fofos
da sua almofada
em andamento estelar.

Cacá Cata – Estrelas
vai subindo até às névoas
de leite espalhado em fogo
cada vez mais perto,
mais junto das estrelas que não catou.

Sobe e sobe, tanto e tanto,
até que emperra no céu.
E ali fica. Intermitente.
Cintilante. Parado,
ao lado da sua estrela - gémea:
a Estrela Cata – Cacás.

Noites que jorram beijos


I

As noites que jorram
beijos atravessam luas
de beijos cheias.

II

É na noite noiva
que jorram beijos.

Os beijos atravessam
noivos a noite
e jorram noites
e noites de brancos
beijos.

III

Nas noites
brancos os beijos jorram.

Luas atravessam-se
nas noites e noites
desses beijos
que sendo brancos
das noites jorram.

IV

Noites brancas
de tantos beijos
jorram ainda mais beijos.

Tontos e brancos
brancos e tontos
atravessam
as quatro luas
as quatro noites
num só beijo.

V

Jorram tantos beijos
tontos a noite atravessam
de manhã são rio.

Torrentes de beijos
jorram da noite.
São lágrimas da lua
corada de tantos
beijos
corada de brancos
beijos.

VI

Noites jorram das luas
de beijos coradas
por uma só noite branca.

Na noite, a luz jorrou.
Na boca, o beijo.
Noites jorram beijos
de beijos cheias.
Atravessam luas.
De manhã são rio.

VII

Atravessa a noite
o beijo
jorrou da boca
a sua memória.

Jorrou a lua
da sua memória.
Jorrou das bocas
o beijo
que na sua memória
atravessa a noite.
Tanta noite
e só aquele beijo
a atravessa.

VIII

Na boca o beijo
atravessa de noite
a sua memória.

Beijos atravessam noites.
Jorram da memória
das noites
jorram das noites
jorram dos beijos
memórias
de lua branca.

IX

A noite noiva
veste-se de beijos.

A noite noiva
veste de beijos
o branco
que jorra da lua.
Torrentes de beijos
que de noite jorram
brancas,
atravessam a lua.

X

Jorram tantos beijos
tontos a noite atravessam
de manhã são rio.